quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O belo da noite.

É esse teu jeito desleixado que me convida a sentar e a ficar.
É assim que te vejo. Lindo na camisola às riscas que eu tanto odeio. E enquanto te vou descrevendo mentalmente, mantenho-me quieta e calada, escutando com atenção tudo o que dizes, o que não dizes e todos os gestos que te seguem os movimentos. Fico quieta, sentada na outra ponta da mesa apenas a absorver toda essa beleza esmagadora. Feliz por ao menos respirar o mesmo ar que tu. Partilhar do mesmo espaço que tu.
E de vez em quando trocamos olhares e ficamo-nos envergonhados a tentar remediar o facto dos nossos olhos quererem mais do que se lhes pode dar. Não sei explicar a emoção que é ver-te de cada vez que entras por aquela porta, na tua postura típica de miúdo desajeitado, mas sei o quanto é infinitamente maravilhoso poder beber-te, observar-te, deliciar-me com cada milímetro da tua presença. Sei que será por pouco tempo, pois somos pássaros diferentes, de mundos opostos e em breve a noite termina e tu voltas a ser o miudo calado do teu grupo de amigos. Todos na casa dos 18. Todos com vícios e manias e uma sede enorme de ganhar o mundo. Todos musculados e sem saberem muito bem o que fazer com tanta beleza e pouca idade. E eu volto a ser a predadora que tu conheces, apenas sequiosa por mais um desejo carnal e nada mais. Mantendo discreta a esperança de que um dia o homem charmoso, mais velho e completamente apaixonado por mim, apareça e me leve com ele para aquele paraíso que desconheço.
Mas enquanto a noite não termina, fiquemo-nos por mais uma bebida. Fiquemo-nos pelas conversas despretensiosas, mas recheadas de detalhes. Fiquemo-nos a devorar a presença um do outro ainda que calados. A trocar olhares ainda que inocentes. A mirar o nada, ainda que visível. Fiquemo-nos nas palavras não ditas e nos suspiros gritados.
Sim, fiquemo-nos…
Porém promete-me que sempre que a noite cair tu estarás no mesmo lugar, sentado na mesma cadeira, à mesma hora, a beber da tua cerveja, para que te possa encontrar sempre que a feiura do mundo me visitar e então fiquemo-nos, uma vez mais, hipnotizados enquanto o silêncio nos ganha de vez. E nos afasta.

domingo, 14 de setembro de 2008

Os meus amigos adoram-me e certamente chorariam se eu morresse. Mas será que eles sabem que a morte faz parte dos meus pensamentos recorrentes? Será que eles sabem que aquela gaja sentada na mesa do bar, de decote, top justinho, maquilhagem milimetricamente produzida, saltos vertiginosos, cabelos compridos, que ri que nem doida por causa de mais uma das suas aventuras vazias, acorda todos os dias e pensa: 'o que é que eu realmente quero da vida? Como é que eu faço para ser feliz?' Será que eles sabem que se eu estou a gargalhar horrores agora, daqui a pouco vou-me desfazer em lágrimas? E vice-versa? E que isso acontece todos os dias? Independentemente das gargalhadas, das saídas à noite, dos imensos filmes por semana, da musica e tudo o que me sirva de distracção para esta realidade. Será que eles sabem o quanto eu sofro e o quanto eu não sofro a cada segundo?
Os meus amigos adoram-me. Mas sempre que podem, fazem piadas a meu respeito. Sempre que podem, transformam-me no bobo da corte: a Ana tem medo de alturas e fazem uma piada sobre isso, a Ana não fuma e lá vem outra piada, a Ana apaixona-se sempre, a Ana acredita no amor eterno, a Ana explode por tudo e por nada, a Ana fala demais, a Ana diz palavrões à mesa, a Ana está sempre a reclamar, a Ana dança descalça, a Ana não sabe ter conversas sérias, a Ana é uma chorona…
Os meus amigos adoram-me, muito, mas nem o máximo de amor de uma pessoa faz sombra ao que realmente deveria ser chamado de amor. Amor, na boca de algumas pessoas, não deveria ter o significado real de amor. Sinto um nojo enorme de todos os vicios que posso vir a ganhar por causa da falta que este sentimento me faz. Odeio isto. Odeio todos os amores falsos, curtos e não amores que inventei só para passar uma semana sem sentir dor. A cada semana sem dor que eu passo, pareço acumular uma vida de dor. Preciso parar, preciso esperar. Mas não existe nada que doa mais que a solidão e eu fico-me por aqui a inventar personagens. Odeio esta fraqueza que me leva a enganar-me. Eu invento amor, sim. E dói-me muito admitir isto. Mas é que eu já não aguento esta saudade de não sei quê. E já não aguento as noitadas, os copos, os cigarros, os amigos, as intenções e as gargalhadas pela metade. É tudo pela metade. Pelo menos ainda tenho a minha fantasia que, enquanto dura, é completa.