É esse teu jeito desleixado que me convida a sentar e a ficar.
É assim que te vejo. Lindo na camisola às riscas que eu tanto odeio. E enquanto te vou descrevendo mentalmente, mantenho-me quieta e calada, escutando com atenção tudo o que dizes, o que não dizes e todos os gestos que te seguem os movimentos. Fico quieta, sentada na outra ponta da mesa apenas a absorver toda essa beleza esmagadora. Feliz por ao menos respirar o mesmo ar que tu. Partilhar do mesmo espaço que tu.
E de vez em quando trocamos olhares e ficamo-nos envergonhados a tentar remediar o facto dos nossos olhos quererem mais do que se lhes pode dar. Não sei explicar a emoção que é ver-te de cada vez que entras por aquela porta, na tua postura típica de miúdo desajeitado, mas sei o quanto é infinitamente maravilhoso poder beber-te, observar-te, deliciar-me com cada milímetro da tua presença. Sei que será por pouco tempo, pois somos pássaros diferentes, de mundos opostos e em breve a noite termina e tu voltas a ser o miudo calado do teu grupo de amigos. Todos na casa dos 18. Todos com vícios e manias e uma sede enorme de ganhar o mundo. Todos musculados e sem saberem muito bem o que fazer com tanta beleza e pouca idade. E eu volto a ser a predadora que tu conheces, apenas sequiosa por mais um desejo carnal e nada mais. Mantendo discreta a esperança de que um dia o homem charmoso, mais velho e completamente apaixonado por mim, apareça e me leve com ele para aquele paraíso que desconheço.
Mas enquanto a noite não termina, fiquemo-nos por mais uma bebida. Fiquemo-nos pelas conversas despretensiosas, mas recheadas de detalhes. Fiquemo-nos a devorar a presença um do outro ainda que calados. A trocar olhares ainda que inocentes. A mirar o nada, ainda que visível. Fiquemo-nos nas palavras não ditas e nos suspiros gritados.
Sim, fiquemo-nos…
Porém promete-me que sempre que a noite cair tu estarás no mesmo lugar, sentado na mesma cadeira, à mesma hora, a beber da tua cerveja, para que te possa encontrar sempre que a feiura do mundo me visitar e então fiquemo-nos, uma vez mais, hipnotizados enquanto o silêncio nos ganha de vez. E nos afasta.
porque sim
Há 8 anos