Os meus amigos adoram-me e certamente chorariam se eu morresse. Mas será que eles sabem que a morte faz parte dos meus pensamentos recorrentes? Será que eles sabem que aquela gaja sentada na mesa do bar, de decote, top justinho, maquilhagem milimetricamente produzida, saltos vertiginosos, cabelos compridos, que ri que nem doida por causa de mais uma das suas aventuras vazias, acorda todos os dias e pensa: 'o que é que eu realmente quero da vida? Como é que eu faço para ser feliz?' Será que eles sabem que se eu estou a gargalhar horrores agora, daqui a pouco vou-me desfazer em lágrimas? E vice-versa? E que isso acontece todos os dias? Independentemente das gargalhadas, das saídas à noite, dos imensos filmes por semana, da musica e tudo o que me sirva de distracção para esta realidade. Será que eles sabem o quanto eu sofro e o quanto eu não sofro a cada segundo?
Os meus amigos adoram-me. Mas sempre que podem, fazem piadas a meu respeito. Sempre que podem, transformam-me no bobo da corte: a Ana tem medo de alturas e fazem uma piada sobre isso, a Ana não fuma e lá vem outra piada, a Ana apaixona-se sempre, a Ana acredita no amor eterno, a Ana explode por tudo e por nada, a Ana fala demais, a Ana diz palavrões à mesa, a Ana está sempre a reclamar, a Ana dança descalça, a Ana não sabe ter conversas sérias, a Ana é uma chorona…
Os meus amigos adoram-me, muito, mas nem o máximo de amor de uma pessoa faz sombra ao que realmente deveria ser chamado de amor. Amor, na boca de algumas pessoas, não deveria ter o significado real de amor. Sinto um nojo enorme de todos os vicios que posso vir a ganhar por causa da falta que este sentimento me faz. Odeio isto. Odeio todos os amores falsos, curtos e não amores que inventei só para passar uma semana sem sentir dor. A cada semana sem dor que eu passo, pareço acumular uma vida de dor. Preciso parar, preciso esperar. Mas não existe nada que doa mais que a solidão e eu fico-me por aqui a inventar personagens. Odeio esta fraqueza que me leva a enganar-me. Eu invento amor, sim. E dói-me muito admitir isto. Mas é que eu já não aguento esta saudade de não sei quê. E já não aguento as noitadas, os copos, os cigarros, os amigos, as intenções e as gargalhadas pela metade. É tudo pela metade. Pelo menos ainda tenho a minha fantasia que, enquanto dura, é completa.
porque sim
Há 8 anos
1 comentário:
desde que estejas em paz contigo própria...!
is important.
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