
Nunca me conformei com o final de nada, por mais que eu soubesse que era a hora certa, o momento ideal, por mais que eu me quisesse livrar de certas coisas, o final sempre me visitou como se eu jamais tivesse parado para sequer pensar nele: cruel, doloroso… triste. As ultimas horas de um dia feliz, um curso, um filme, uma novela, um cheiro, uma viagem, um beijo, férias, um relacionamento. O ultimo dia da semana, do mês, do ano. Sempre tristes, sempre cheios de melancolia. Sempre capazes de me colocarem à beira do precipício num desespero quase absurdo. Uma vontade de fugir, de me isolar. Um mal estar em velar a vida que terminou para poder continuar. Uma mescla caótica de morte com nascimento. Não me perguntem.
Dez para a meia noite. Todos entusiasmados, todos a ecoarem a noite com gargalhadas, cantorias, gritos... delirantes com a festa.
A casa está quente, sente-se o cheiro a doces, a bebida, a lume de chão. Em frente é possivel avistar uma varanda iluminada e vultos que se fazem balançar. Todo aquele aparato, aquela preparação para um não sei quê que está a chegar, assusta-me e faz-me desaparecer. Preciso de espaço, de ar. E ao longe consigo ouvi-los comentar ‘Deixa-a estar, ela é mesmo assim.’ E aquela coisa que está prestes a terminar para dar lugar a outra, faz-me querer um refugio que não é a minha mãe, nem a minha cama, nem a minha casa. Olho em frente, vejo um carro conhecido. Ainda existe a possibilidade de me poder ir embora a qualquer momento, mas para onde?
Quero um colo, um carinho e um ombro que nunca conheci. Sinto uma necessidade absurda de ir para qualquer lugar, de sair dali. Sinto saudades de uma vida inteira, como se eu própria já tivesse vivido uma vida inteira. Uma coisa enorme e ao mesmo tempo concentrada naquele pequeno golpe do meu polegar, que de vez enquando sangra e me incomoda bastante. Uma angustia que se sente só no olhar.
Fico sozinha, onde a vista é mais bonita. Tiro o telemóvel da mala e percorro a lista telefónica. 'Para quem é que eu vou telefonar? Quem? Quem? Quem?' Ninguém. Esta coisa que sinto não é saudades de alguém, nem sequer passa com um telefonema.
- Chamem a Ana que faltam poucos minutos para a meia noite!’
- Deixa-a estar que ela é mesmo assim…
Preciso escutar-me, mas não tenho nada para me dizer, a não ser este vão de pensamentos. Só este intervalo de motivos. Este nada em que caio, de vez em quando, e que também não tem nada para me dizer a não ser que o mistério também faz parte. Assim que eu me sentir mais leve, saio do nada, levanto-me e volto ao normal. Mas não me forcem.
- Deixem-na estar!
Procuro entre os cd's amontoados aquela musica. Aquela que explica perfeitamente o final das coisas. Não da morte, mas de morrer… quero aquela musica, mas não a encontro, ninguém a tem.
- Oh Ana, tu tas é doida!
E eu, mais uma vez, pergunto-me a mim mesma, porque raio saio de casa no dia em que mais pavor tenho de sair de casa. Mas se eu fosse dizer isto a alguém, com toda a certeza no minuto a seguir estariam presentes todos os psiquiatras do País para me tratarem. Então deixo-me estar e olho, mais uma vez, para o telemóvel apenas para me lembrar que existe, ainda, uma lista de quereres dentro de mim, que irão, dentro em breve, voltar ao normal.
3, 2, 1… FELIZ ANO NOVO!
Gritam histéricos, como se fossem morrer. Correm, abraçam-se, beijam-se, como se fosse a ultima vez… correm, riem, e gritam o quanto gostam uns dos outros. E é tão lindo vê-los festejar que, por momentos, sinto uma pontada de inveja por não sentir o mesmo, naqueles primeiros minutos de 2009. Mas entro na ‘coreografia’, como se fosse mais uma ovelha do rebanho, feliz ao som do Quim Barreiros. E ver-me do lado de fora, dá-me o poder de captar todos os momentos em que eu me traio e grito feliz da vida para dar de presente ao mundo a minha presença, ainda que nem eu possa senti-la nestas alturas.
Terminou, felizmente. 2008 terminou. Daqui a pouco estarão todos tão bêbedos e eu poderei então ser estranha ou infeliz à vontade que ninguém notará. Posso também ir dormir, por exemplo e libertar-me de vez desta obrigação ridícula de estar feliz e simpática quando não estou, nem me apetece. E quando isto me acontece, quando esta coisa que não sei que nome lhe dar, toma conta de mim, a ultima coisa que eu quero é receber abraços ou que me perguntem ‘ o que é que tens?’. Agora imaginem a aflição que é ficar assim numa passagem de ano novo… a noite dos abraços.
Por volta das quatro da manhã entre bocejos, pessoas caídas, casais que já dormem, uma voz ouve-se feliz, radiante, a ecoar na noite de lágrimas nos olhos. É nesta altura que eu, finalmente, abraço as pessoas. Canto. Danço. É nesta altura que começo a suspirar e a ficar mais leve. O Natal já se foi, 2008 também, portanto agora que não preciso parecer feliz, posso então tirar a máscara e ser feliz à vontade. E cada vez me convenço mais que é isto que esta coisa, que me aparece nas horas mais inoportunas, me tenta transmitir… eu não sei ser feliz com os finais, no entanto, arranjo sempre uma forma de me divertir quando sou eu que, apesar de tudo, chego ao final... inteira.


