segunda-feira, 27 de outubro de 2008


Sábado à noite e eu juro que a última coisa que queria era tirar as pantufas e calçar os saltos. A vontade de escolher a roupa e delinear os olhos era nenhuma, mas eu enchi-me de coragem e fui, porque há pessoas que não merecem ouvir um não.

O ambiente era o do costume, os amigos do costume, a musica do costume e eis que ele se aproxima sorrateiro:


- Olá desaparecida!

- Não tenho andado desaparecida… (apenas não te queria encontrar)

- Já tenho saudades tuas…

- (Minhas e de mais quantas?) Humm…

- Ia enviar-te mensagem para nos encontrarmos este fim de semana…


E neste momento ocorreu-me como é que duas pessoas que não têm nada a ver uma com a outra, conseguem estar juntas durante tanto tempo. Ainda que esse ‘tanto tempo’ sejam uns míseros meses. Sim, porque ter alguns gostos em comum e partilhar os mesmos amigos e algumas boas gargalhadas, não tem, necessariamente, que ver com afinidade e relacionamentos.

- Que tens feito ultimamente?

- Estudar, sabes como é… enquanto não entrar no ritmo, é complicado…

- Pois é…


Nós estudámos na mesma escola. O melhor amigo dele é namorado de uma grande amiga minha. As nossas mães são amigas desde crianças e ainda hoje costumam sair juntas. Ele é giro, tem aquele corpo escultural que eu adoro e uns olhos que são um charme… Enfim, ficávamos bem juntos. Mas não bastava. Para mim não bastava. Porque tudo aquilo que ele tinha para me mostrar eram apenas referências e as referências não me arrebatam, não me sacodem a alma, não me dão um choque eléctrico no coração.


- Vais ficar por aqui hoje?

- Talvez…

- Ia convidar-te para irmos até qualquer lado beber uma cerveja...

- Eu não gosto de cerveja, lembraste?


Ele não sabe nada de mim. Não sabe que odeio cerveja, que abomino o fumo de cigarros. Não sabe que não tolero que me imponham regras, como ele tentou um dia. E por isso até hoje, quase três meses depois, continua a pensar que desapareci da vida dele por causa das aulas, do muito trabalho e acha-se bom demais, grande demais, para sequer colocar a hipótese que o factor principal seja, simplesmente, porque já não o quero.

- Bem, eu vou ter com elas. Já devem andar à minha procura. Vemo-nos por ai!


E fui.

Porque alguns encontros são mesmo dispensáveis, visto que nos colocam diante situações que só provam o quanto o tempo é implacável e pior, o quanto cometemos erros crassos.
Às vezes mesmo sem querer.

1 comentário:

Insano disse...

Gosto. Ganhaste um leitor.